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O fim do multilateralismo

  • Foto do escritor: José Maria Dias Pereira
    José Maria Dias Pereira
  • 15 de mar.
  • 3 min de leitura

A eleição de Donald Trump está provocando um forte tremor no tabuleiro de comércio mundial. As peças estão se movendo numa velocidade nunca antes sequer imaginada, quanto mais realizada. Décadas de negociação - como é o exemplo da União Europeia - estão caindo por terra. Pode-se dizer que a época do multilateralismo, dos acordos entre blocos de comércio chegou ao fim? Possivelmente, sim. Um policial chegaria à conclusão que há fortes indícios de que um crime foi cometido, suspeita-se do criminoso, porém enquanto o corpo não for encontrado ninguém irá preso. 

 

É mais ou menos essa a situação atual. Trump aumenta as tarifas de importação dos artigos estrangeiros que entram no mercado americano. Em contrapartida, os exportadores retaliam elevando as taxas dos produtos americanos que entram em seus respectivos mercados. Trump quer “fazer a América grande outra vez”, mas não às nossas custas, raciocina um país prejudicado: “você taxa daí, que eu taxo daqui”! Quem perde são os consumidores norte-americanos e do resto do mundo, que têm que pagar mais caro pelos produtos ou componentes que compram de outros países. 

 

Não é à toa que muitos analistas já antecipam que haverá estagnação da economia e mais inflação nos Estados Unidos. Não é difícil de prever. Com os produtos importados mais caros, os preços sobem e o rendimento real dos consumidores cai. Significa que eles compram menos, inclusive mercadorias produzidas no próprio país. A queda da demanda gera desemprego e a economia entra em recessão. Com o resto do mundo (economias menores) acontece a mesma coisa, como um espelho do que ocorre na grande economia. Essa é a cronologia de uma crise anunciada. 

 

Trump, na sua mania de perseguição, acredita (imagine só!) que a União Europeia foi criada para prejudicar os Estados Unidos. Escolheu mal o exemplo: a UE levou cerca de meio século para se concretizar. Supõe que a indústria americana foi destroçada por causa das tarifas, quando, na verdade, foi por falta de competitividade – sobretudo após o “milagre chinês”. Dá para entender o discurso de Trump dirigido ao seu eleitor (americano médio de baixo nível cultural), que sonha que o chamado “cinturão da ferrugem” (fábricas que fecharam e viraram sucata) um dia volte a ser o que era antes. Mas essa é uma grande mentira. A queda de popularidade de Trump é sinal de que não se pode “mentir para todos o tempo todo”.  

 

A ideia de que o comércio exterior é uma “via de mão única”, ou seja, que objetivo sempre é conseguir superávit (exportações maiores que importações), além de estar errada, é “mais velha que o mundo”. Os próprios economistas mercantilistas do século XVII (Petty, Hume) já tinham percebido que o superávit no comércio encarece os preços e, num segundo momento, resulta em déficit comercial. Ou seja, é uma vantagem efêmera.  

 

Nos séculos XVIII/XIX, o autor mais importante sobre o tema é o economista inglês, David Ricardo. Ele provou, através de uma análise dedutiva, que a chamada “lei dos cereais”, que proibia a importação de trigo era nefasta para os interesses dos consumidores ingleses e só beneficiava os proprietários rurais (teoria da renda diferencial). Demonstrou, através de um célebre exemplo de trocas entre dois produtos (tecidos e vinho), cada um produzido exclusivamente por um país (respectivamente, Inglaterra e Portugal), que se cada país se concentrasse em produzir apenas um deles e adquirisse a outra mercadoria de outra Nação, os consumidores pagariam mais barato e consumiriam uma maior quantidade de bens do que se produzissem ambos os produtos.  

 

Essa teoria sofreu críticas ao longo do tempo, principalmente no sentido de que a especialização perpetuaria o atraso dos países exportadores do que hoje denominamos de commodities. Mas não vem ao caso. O importante é mostrar quão atrasadas são as ideias de Trump. 

 

 

Diário impresso/Opinião/ Quarta-feira 19/03/2025/ Prof. José Maria Dias Pereira 

 
 
 

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